TERAPIA ASSISTIDA
POR ANIMAIS (TAA):
o cão como dispositivo terapêutico
na clínica fonoaudiológica
Fga. Ms. Camila Mantovani Domingues
"Percebi que os remédios nem sempre vinham em frascos,
mas também em quatro patas".
(Dr. Willian Thomas, 1994)
Ao compartilhar nossas rotinas com os animais, estes passaram
a fazer parte de nossa cultura ao ocupar diferentes papéis,
para além da companhia. Atualmente, devido aos benefícios
não restritos ao senso comum, mas também elencados
a partir de pesquisas científicas, eles habitam consultórios,
hospitais, escolas e instituições diversa. Desses
estudos originaram-se duas formas de denominar procedimentos que
envolvem animais com o objetivo de cuidar da saúde humana:
atividade assistida por animais (AAA) e terapia assistida por
animais (TAA) (DELTA SOCIETY, 2006).
O termo Terapia Assistida por Animais, do inglês Animal
Assisted Therapy (AAT), atualmente considerado oficial, foi proposto
pela organização americana Delta Society (www.deltasociety.com)
entidade referência para a implantação de
programas de Atividade Assistida por Animais (AAA) e Terapia Assistida
por Animais.
A TAA é dirigida para promover a saúde física,
social, emocional e/ou funções cognitivas através
de processo terapêutico formal, com procedimentos e metodologia,
amplamente documentado, planejado, tabulado, medido, e com seus
resultados avaliados, podendo ser desenvolvido em grupo ou de
forma individual (Delta Society, 1996).
A hipótese do cão funcionar como um dispositivo
terapêutico e potencializar o processo também foi
confirmada em pesquisa realizada por nós no Programa de
Pós-Graduação em Fonoaudiologia da PUC-SP,
no período de fevereiro de 2006 a agosto de 2007. Nos casos
acompanhados, a partir da motivação para o contato
com o animal, notamos significativa participação
dos pacientes na terapia, corroborando os achados de pesquisas
e relatos sobre os efeitos positivos do envolvimento de cães
em ambiente terapêuticos diversos (KAWAKAMI, 2002; LEWIS,
2003; BECKER, 2003; DOTTI, 2005; MACAULEY, 2006; OBIHACC, 2006).
Nos casos estudados, a presença do cão, no setting
fonoaudiológico, favoreceu:
" a interação terapeuta/paciente;
" intensificou a atividade dialógica entre o par;
" a gestualidade e a movimentação corporal
comunicativamente eficientes (LaFRANCE e outros, 2007);
" a motivação para as atividades de leitura
e escrita por parte dos pacientes;
" a diminuição dos sintomas manifestos na linguagem
oral e/ou gráfica, e
" a mobilização da afetividade positiva dos
pacientes.
Além dos benefícios descritos, outros já
apontados cientificamente comprovam que quando crianças
e animais estão juntos, seja em uma terapia, na sala de
aula ou em outras atividades:
o Cria-se um ambiente motivador para as crianças interação.
o Proporciona-se atividades interessantes, espontâneas,
facilitando a aprendizagem e a comunicação.
o Facilita-se o desenvolvimento emocional através do vínculo
formado entre a criança e cão no qual muitos sentimentos
são trocados, auxiliando na superação de
conflitos e em uma maior consciência de si mesmo.
o Encoraja o respeito por todas as formas de vida, desenvolvendo
senso de responsabilidade e de cuidado consigo e com o outro.
o Facilita a comunicação, favorecendo processos
interativos entre criança e cão e/ou com os outros
próximos a eles.
o Favorece a expressividade, em diversas formas, já que
o animal não julga nem tem preconceito.
E foi o psicólogo infantil norte-americano Boris M. Levinson
que, na década de 60, trouxe para a ciência e a prática
a riqueza do potencial terapêutico das relações
entre crianças e animais. Em seu trabalho ele percebeu
que a natureza do vínculo entre pessoas e animais era de
uma qualidade diferenciada. Contudo, essa experiência vivenciada
por ele significou uma nova visão para a abordagem terapêutica,
baseada na relação do homem com o animal.
Era o fim dos anos 50, em Nova York. Havia um mês o psicólogo
infantil americano Boris Levinson tentava estabelecer contato
com o seu mais novo paciente, um menino de quase 10 anos com sérios
problemas de socialização. Certo dia, o pequeno
paciente chegou antes da hora marcada para a consulta e, na sala
de espera, encontrou "Jingles", o cão labrador
do doutor Levinson. Ao abrir a porta de seu consultório,
qual não foi a surpresa do psicólogo: abraçado
ao cachorro, o menino discorria sobre suas angústias e
aflições. A experiência motivou Levinson a
usar o "doutor" Jingles no tratamento de autismo. Ele
descobriu que o animal propiciava às crianças a
oportunidade de expressar suas emoções. Os resultados
dos estudos de Levinson foram divulgados em 1962, num artigo intitulado
"The dog as a 'co-therapist'" ("O cachorro como
um 'co-terapeuta'"). Na ocasião, o psicólogo
foi motivo de chacota entre os colegas. Hoje, passadas mais de
quatro décadas, as teorias de Levinson são levadas
muito a sério. Está comprovado que a convivência
com animais faz bem à saúde física e mental
dos seres humanos de qualquer idade. (FUCKS, 1989)
As experiências com animais em ambientes terapêuticos,
nos moldes da TAA, ao longo destes anos, têm mostrado que
este dispositivo é potencializador para os processos em
que os envolvidos apresentam motivação para estar
com o animal. Crianças que apresentam recusas ao tratamento,
mediante a presença de um cão no setting, esboçam
entusiasmo, ressignificação do processo e interação
ativa.
Finalizo, ressaltando que as pesquisas atestam a eficácia
da TAA em ambientes terapêuticos, bem como a gradativa mobilização
de pesquisadores em direção ao tema.
Contato:
camiladomingues_taa@ig.com.br